Nuno Saraiva: O Boicote de 1, 2 e 3 de Junho dá-me vontade de rir
2008.6.10 – 17:22
Os meus amigos e colegas que se estão a empenhar ou envolver neste boicote que me perdoem mas este é ridículo.
Como é óbvio, não concordo com este boicote populista e principalmente desinformado.
Mesmo que a razão estivesse do lado de quem elaborou o texto do boicote, dificilmente este teria efeito. O país necessita de petróleo para viver. Dificilmente se pode parar o país à espera que a gasolina e o gasóleo baixem.
Isto porque os combustíveis não são só para passear ao fim-de-semana. Como iriam reagir os defensores do boicote quando chegassem aos supermercados e não houvesse nada para comprar porque os transportadores estavam à espera que o preço do gasóleo baixasse? Nem leite, nem pão. Os cafés e restaurantes também fechavam. As farmácias ficavam vazias. No limite, esse boicote levado a sério, levaria ao caos, como esteve para acontecer em França, há dois ou três anos.
(É possível que este caos interesse a alguns partidos políticos, mais um motivo para não aderir ao boicote)
Ainda assim o motivo principal é o conteúdo do boicote.
Um boicote de três dias não surtirá o efeito baixa de preço com certeza. Mesmo que o fizesse, é errado afirmar que a distribuição de combustíveis dá lucros elevados. A distribuição de combustíveis na Europa está a dar rendibilidades baixíssimas ao ponto de levar a Shell a abandoná-la ou reduzi-la em alguns países
mediterrânicos dados os constantes prejuízos / baixas rendibilidades que o negócio dá.
- Os Revendedores / Concessionários de combustíveis estão a viver situações gravíssimas. Sendo o seu ganho uma comissão fixa por litro e estando o mercado a cair pelo terceiro ano consecutivo, menos litros, menos receitas, menos lucros, menos salários;
- O negócio da Distribuição de Combustíveis está cada vez menos atractivo. A Galp em 2007 teve um decréscimo de 26,7 % neste negócio, isto é, em 2007 ganhou menos 95 m€ do que em 2006. A rendibilidade operacional deste negócio é 6%, se ainda aplicarmos custos financeiros e IRC, esta vai parar a 4%, rendibilidade insuficiente, mais valia vender os postos e investir o dinheiro no banco. O aumento de lucro que a Galp tem deve-se à exploração e produção, segmento onde o preço do barril tem aumentado e o custo de produção é o mesmo;
- A BP, teve prejuízo em 2005 e em 2006. 2007 ainda não está disponível, mas as coisas aparentam estar muito complicadas para a manutenção desta companhia em Portugal;
- A Repsol é a empresa com melhores práticas (do ponto de vista económico) na distribuição de combustíveis na Europa. Infelizmente esta semana não consegui consultar os números, devido a erro no site, porém acredito que as rendibilidades dos capitais investidos sejam, no máximo, aceitáveis. Nada de muito elevado.
O que é que um analista económico-financeiro aconselharia a Galp a fazer?
Vender o negócio da distribuição. Vender todos os postos e terrenos que tem, e investir todo o dinheiro nos novos poços que descobriu.
O que é que a BP pondera fazer?
Vender o negócio da distribuição. Vender todos os postos e terrenos que tem, e investir todo o dinheiro na exploração.
Por este andar, qualquer dia não há postos de abastecimento. Ficamos com 10 ou 15 postos no país.
Boicotes… Não brinquem com coisas sérias.
